No
período apostólico, os escritos do Novo Testamento (NT) não trazem nenhuma
descrição completa sobre como Jesus e os primeiros cristãos celebravam a
Liturgia. O que existem são alusões, indicações, detalhes e indícios...
Jesus
e os seus primeiros seguidores eram judeus. Herdeiros, portanto, de uma longa,
rica e bem elaborada tradição cultual. Como tais, e como todo judeu piedoso,
não deixaram de participar normalmente das celebrações litúrgicas da religião
do seu povo (Templo, Sinagogas, festas, orações). Isso significa que, em termos
culturais, houve uma natural continuidade entre o judaísmo e o movimento
cristão emergente.
Os
evangelhos nos mostram Jesus como filho de uma família que vive segundo a lei
cultual de Moisés (cf. Lc 2,21-22.41-42). Adulto, no início de sua atividade
missionária ele se faz “batizar” por João (Lc 3,2; Mt 3,13ss; Mc 1,9ss). Tinha
por “costume” frequentar as sinagogas, ensinando e tomando parte ativa no culto
sinagogal (cf. Mc 1,21; Mt 4,23; Lc 4,17-21). Frequentemente demora-se no templo,
centro e expressão máxima do culto judaico (cf. Jo 2,13; 5,1; 7,2-14; 10,22-23
etc). (Mas com um detalhe: os evangelhos não dizem que Jesus ia lá para
participar das cerimônias sagradas - sacrifícios. Sua presença no templo
parecia ter outra finalidade: passar ao povo uma mensagem nova e renovadora
trazida do Pai). Membro de um povo tradicionalmente orante, Jesus passa noites
em oração (Lc 6,2) e ensina seus discípulos a rezar (Lc 11,1-4). Celebra as tradicionais festas religiosas do
seu povo. Exemplo típico é a reunião que ele faz com seus discípulos para
celebrar a ceia pascal (cf. Mc 14,12-25; Mt 26,17-29; Lc 22,7-20; Jo 13,1ss).
No seio de sua família, deve ter pronunciado muitas das orações que
todo judeu piedoso
reza todo dia.
Por exemplo, ele conhece e lembra o “Shema
Israel” (“Ouve, Israel”: tradicional profissão de fé que todo judeu faz na
oração da manhã) (Mc 12,29). Conhece e
utiliza as célebres “louvações” (berakoth)
(Mc 6,41; 8,6; 14,22-23), chegando a transformá-las em uma de suas orações (cf.
Mt 11,25-27).
Quanto
aos primeiros discípulos de Jesus, não podia ser diferente. Seguindo os
passos do mestre,
continuavam praticando normalmente
o culto judaico
(no templo, nas sinagogas, nas orações diárias, nas festas[1].
Jesus e os apóstolos não criaram uma Liturgia
totalmente nova. Isto é, foi sobre formas cultuais já existentes que procuraram
encarnar o novo “culto em espírito e verdade” inaugurado por Jesus (cf. Jo
4,23). A liturgia hebraica vivida e celebrada por Jesus e sua primeira
comunidade assume agora um novo referencial. Carrega-se de um novo sentido. O
referencial é a própria novidade Jesus de Nazaré, o Cristo Salvador. Assim, a
partir do mistério de Cristo, aconteceu uma “cristianização dos elementos
rituais herdados/adotados do judaísmo, emergindo daí uma “Liturgia cristã”.
Vejamos alguns elementos “cristianizados” pelo movimento cristão:
A oração eucarística da missa: foi organizada a partir das “louvações”
(orações de louvor) que os judeus faziam durante as refeições familiares e nas
sinagogas, exaltando os benefícios da criação e da providência divina sobre
Israel.
Os pedidos da oração dos fiéis na missa: inspiram-se no modelo das
dezoito bênçãos com as quais se iniciava a Liturgia sinagogal.
A semana, com o costume de dedicar um dos sete dias à reunião litúrgica
(os cristãos a deslocaram do sábado para
o domingo, em memória da Ressurreição), as festas de Páscoa, Pentecostes e o
próprio conceito de “ano litúrgico” (com uma
série de celebrações religiosas que sacralizam o tempo profano), o culto dos mártires: tudo isso
herdamos do judaísmo.
Alguns elementos da oração cotidiana (oração da manhã e da tarde:
Laudes e Vésperas; o ternário das horas:
Terça, Sexta, Nona; a contagem
do dia litúrgico de tarde a
tarde, isto é, de véspera a véspera):
herdamos do judaísmo.
O costume de
iniciar as orações
litúrgicas com a
fórmula invocatória “Corações ao
alto”, “Oremos”, “Demos graças”: herdamos do judaísmo.
A doxologia, isto é, o costume
de terminar a oração com um breve louvor a Deus, à maneira do “Glória ao
Pai”; o canto dos serafins (Is 6,3: “Santo, santo, santo”)
usado pelos judeus
na oração da
manhã: herdamos do judaísmo.
Aclamações litúrgicas proclamadas pela comunidade judaica, como “Amém”,
“Aleluia”, “Hosana”, “Pelos séculos dos séculos”: herdamos do judaísmo.
As chamadas orações “paradigmáticas”, mediante as quais, fazendo alusão
a grandes exemplos (paradigmas) da história da salvação, pede-se a Deus ajuda e
salvação: herdamos do judaísmo.
A imposição das mãos, um dos gestos mais importantes da Liturgia
cristã, bem como a unção dos enfermos: herdamos do judaísmo.
É todo um conjunto riquíssimo de elementos rituais cristãos originários
do culto judaico, o que demonstra o quanto nossa Liturgia está enraizada na
tradição cultual do AT (Antigo Testamento).
[1]
Cf. NEUNHEUSER, Burkhard. História da Liturgia.
In: SARTORE, Domenico; TRIACCA Achille M. Triacca (Orgs.). Dicionário de
Liturgia, p. 523.
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