sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A Liturgia nos primórdios do Cristianismo


No período apostólico, os escritos do Novo Testamento (NT) não trazem nenhuma descrição completa sobre como Jesus e os primeiros cristãos celebravam a Liturgia. O que existem são alusões, indicações, detalhes e indícios...

Jesus e os seus primeiros seguidores eram judeus. Herdeiros, portanto, de uma longa, rica e bem elaborada tradição cultual. Como tais, e como todo judeu piedoso, não deixaram de participar normalmente das celebrações litúrgicas da religião do seu povo (Templo, Sinagogas, festas, orações). Isso significa que, em termos culturais, houve uma natural continuidade entre o judaísmo e o movimento cristão emergente.

Os evangelhos nos mostram Jesus como filho de uma família que vive segundo a lei cultual de Moisés (cf. Lc 2,21-22.41-42). Adulto, no início de sua atividade missionária ele se faz “batizar” por João (Lc 3,2; Mt 3,13ss; Mc 1,9ss). Tinha por “costume” frequentar as sinagogas, ensinando e tomando parte ativa no culto sinagogal (cf. Mc 1,21; Mt 4,23; Lc 4,17-21). Frequentemente demora-se no templo, centro e expressão máxima do culto judaico (cf. Jo 2,13; 5,1; 7,2-14; 10,22-23 etc). (Mas com um detalhe: os evangelhos não dizem que Jesus ia lá para participar das cerimônias sagradas - sacrifícios. Sua presença no templo parecia ter outra finalidade: passar ao povo uma mensagem nova e renovadora trazida do Pai). Membro de um povo tradicionalmente orante, Jesus passa noites em oração (Lc 6,2) e ensina seus discípulos a rezar (Lc 11,1-4).  Celebra as tradicionais festas religiosas do seu povo. Exemplo típico é a reunião que ele faz com seus discípulos para celebrar a ceia pascal (cf. Mc 14,12-25; Mt 26,17-29; Lc 22,7-20; Jo 13,1ss). No seio de sua família, deve ter pronunciado muitas das orações  que  todo  judeu  piedoso  reza  todo  dia.  Por exemplo, ele conhece e lembra o “Shema Israel” (“Ouve, Israel”: tradicional profissão de fé que todo judeu faz na oração da manhã) (Mc 12,29).  Conhece e utiliza as célebres “louvações” (berakoth) (Mc 6,41; 8,6; 14,22-23), chegando a transformá-las em uma de suas orações (cf. Mt 11,25-27).
Quanto aos primeiros discípulos de Jesus, não podia ser diferente. Seguindo os passos  do  mestre,  continuavam  praticando  normalmente  o  culto  judaico  (no templo, nas sinagogas, nas orações diárias, nas festas[1].

Jesus e os apóstolos não criaram uma Liturgia totalmente nova. Isto é, foi sobre formas cultuais já existentes que procuraram encarnar o novo “culto em espírito e verdade” inaugurado por Jesus (cf. Jo 4,23). A liturgia hebraica vivida e celebrada por Jesus e sua primeira comunidade assume agora um novo referencial. Carrega-se de um novo sentido. O referencial é a própria novidade Jesus de Nazaré, o Cristo Salvador. Assim, a partir do mistério de Cristo, aconteceu uma “cristianização dos elementos rituais herdados/adotados do judaísmo, emergindo daí uma “Liturgia cristã”. Vejamos alguns elementos “cristianizados” pelo movimento cristão:
 A organização da Liturgia da Palavra da missa (com leituras bíblicas, canto dos salmos, homilia):  vem da Liturgia judaica celebrada aos sábados nas sinagogas.
A oração eucarística da missa: foi organizada a partir das “louvações” (orações de louvor) que os judeus faziam durante as refeições familiares e nas sinagogas, exaltando os benefícios da criação e da providência divina sobre Israel.
Os pedidos da oração dos fiéis na missa: inspiram-se no modelo das dezoito bênçãos com as quais se iniciava a Liturgia sinagogal.
A semana, com o costume de dedicar um dos sete dias à reunião litúrgica (os cristãos a deslocaram  do sábado para o domingo, em memória da Ressurreição), as festas de Páscoa, Pentecostes e o próprio conceito de “ano litúrgico” (com uma  série de celebrações religiosas que sacralizam o tempo  profano), o culto dos mártires: tudo isso herdamos do judaísmo.
Alguns elementos da oração cotidiana (oração da manhã e da tarde: Laudes e Vésperas; o ternário das  horas: Terça, Sexta, Nona;  a  contagem  do  dia litúrgico de tarde a tarde, isto é, de véspera a  véspera): herdamos do judaísmo.
O  costume  de  iniciar  as  orações  litúrgicas  com  a  fórmula  invocatória “Corações ao alto”, “Oremos”, “Demos graças”: herdamos do judaísmo.
A doxologia, isto é, o costume  de terminar a oração com um breve louvor a Deus, à maneira do “Glória ao Pai”; o canto dos serafins (Is 6,3: “Santo, santo,  santo”)  usado  pelos  judeus  na  oração  da  manhã: herdamos do judaísmo.
Aclamações litúrgicas proclamadas pela comunidade judaica, como “Amém”, “Aleluia”, “Hosana”, “Pelos séculos dos séculos”: herdamos do judaísmo.
As chamadas orações “paradigmáticas”, mediante as quais, fazendo alusão a grandes exemplos (paradigmas) da história da salvação, pede-se a Deus ajuda e salvação: herdamos do judaísmo.
A imposição das mãos, um dos gestos mais importantes da Liturgia cristã, bem como a unção dos enfermos: herdamos do judaísmo.
É todo um conjunto riquíssimo de elementos rituais cristãos originários do culto judaico, o que demonstra o quanto nossa Liturgia está enraizada na tradição cultual do AT (Antigo Testamento).



[1] Cf. NEUNHEUSER, Burkhard. História da Liturgia.  In: SARTORE, Domenico; TRIACCA Achille M. Triacca (Orgs.). Dicionário de Liturgia, p. 523.

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